sábado, dezembro 17, 2011

Carta ao meu avô.

Ontem realizou-se a Eucaristia de Sétimo Dia em memória do meu Avô Maximino, pai do meu pai, aquele que tinha a alcunha de Vint'oito. Li-lhe uma carta no final da cerimónia.

Olá avô, 
Estejas onde estiveres quero falar contigo uma vez mais. Mais do que minhas, estas são palavras dos teus netos, dos teus filhos, noras e genros, dos teus amigos e, sobretudo, da tua "boneca", que era o nome pelo qual carinhosamente tratavas a avó.
Estava bem longe quando a tua passagem por este mundo terminou. Vi-te a ultima vez com vida e de olhos bem abertos à minha frente quando me despedi de ti em Outubro passado. Estavas triste... "O Natal está aí à porta, não tarda nada estou cá de volta!" Era assim que eu amenizava sempre as despedidas, tentando desvalorizar o tempo que levaria até que nos voltássemos a ver. Sorria enquanto o meu coração chorava apertado com medo de ser aquela a última vez que te via... Nunca estamos preparados para dizer adeus de verdade, não é avô? E nós, ainda crianças a aprender a viver neste mundo de crescidos, estávamos mal habituados... Eu estava mal habituado. Até hoje tinha perdido apenas uma pessoa que nos era muito querida a todos. Sabes de quem estou a falar... Estás agora ao lado dela. 
Já lá vão mais de 12 anos, e apesar de nunca ter esquecido a alegria de viver da Madrinha, a gente acaba por se acostumar ao vazio que só se preenche com as boas memórias com que ela nos deixou. Tinha apenas 10 anos, feitos no dia em que ela partiu e não fui capaz de me ir despedir ao seu funeral. 
Quis Deus ou o destino - ou os dois que talvez sejam um só - que eu não tivesse chegado a tempo do teu funeral. Contaram-me que foi lindo. Estavas rodeado de amor... Tanta gente que te admirava e que nunca se esquecerá de ti. Lembro-me de me dizeres muitas vezes que a grandeza de uma pessoa se media pelo número de pessoas que vinham ao seu funeral. Foste sem dúvida um grande homem, avô. 
Felizmente tive a oportunidade de ver o teu corpo uma vez mais antes de o descerem à tua ultima morada. Era apenas um corpo, porque tu já lá não estavas. Tentei falar contigo mas já não me respondias... mas estavas lindo, avô, como sempre. Deixaste este mundo em paz e sem sofrimento. Tiveste a morte santa que tanto desejavas, como o teu pai. 
Hoje não estás mais aqui em carne, mas continuas connosco em espírito. Estás-me no sangue, estás-me na pele. Literalmente. E nunca cheguei a mostrar-te como estás gravado em mim...
Tiveste uma vida difícil, trabalhaste sempre imenso e o esforço do teu trabalho deu frutos. Estão à vista de qualquer um e eras o homem mais orgulhoso do mundo pela família que tinhas. Mas nós somos a família mais sortuda por te termos tido connosco por tanto tempo. Podia chorar pelos anos que não tive contigo, pelas coisas que não partilhamos... - e tinha tanto ainda para partilhar contigo, avô... - mas foi sempre o teu espirito alegre e o teu sorriso constante que me tornaram numa pessoa positiva, sonhadora e, acima de tudo, num lutador. E é por isso que agora, apesar das lagrimas, estou feliz. Tive o melhor avô do mundo. 
Queria chegar a ter netos e poder brincar com eles e ainda assim, poder beijar a pele macia da avó e sentir o teu abraço forte, avô. Queria poder parar os relógios que ditam o inicio e o fim da vida de cada um. Mas a vida é mesmo assim... 
Tinha tanto que te podia dizer... Tantas boas recordações que podia partilhar... Das manhãs que esperavas pelos teus netos para nos levares à escola, as tardes em que esperavas por nós na tua carrinha verde, enquanto ouvias o recitação do terço nas alturas, as imensas histórias que partilhavas connosco... Mas ainda vamos conversar muitas vezes. Temos todo o tempo do mundo... Agora mais do que nunca. 
Mesmo que nunca mais ouça as tuas palavras na tua voz grave e volumosa, capaz de se ouvir em qualquer lugar, mesmo que nunca mais me respondas com palavras, teremos todos para sempre na nossa memória o teu sorriso, o exemplo que foste e serás sempre de coragem, força, garra, vontade de viver, de trabalhar, de fazer, de conquistar... Serás sempre lembrado pelo grande homem que foste. Jamais alguém que te tenha conhecido poderá esquecer o Sr. Vint'oito.
Não eras apenas o Amor da avó, eras o amor de todos nós... 
E sempre que fecharmos os olhos e pensarmos em ti, ver-te-emos ao lado da tua afilhada, a sorrir. Apazigua-nos o coração saber que não estás aí sozinho. 
Desculpa pela simplicidade desta carta. Tu merecias mais, muito mais, mas é impossível pôr em palavras tudo o que foi, é ainda e sempre será uma pessoa tão especial como tu.
Uma ultima coisa, avô... Quando era pequenino, rezava todas as noites ao meu anjinho da guarda... Depois cresci e comecei a achar estranho pedir que me protegessem a alguém que não conhecia, em quem não confiava, que nem sabia se realmente estava ali para mim. Agora tudo é diferente... sei que estás aí, sempre, para sempre.
Anjinho da guarda, minha companhia, guarda as nossas almas, de noite e de dia. 
Até sempre, avô.

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